terça-feira, 30 de junho de 2009

Capítulo 9 – O que fiz na noite passada?

Capítulo 9 – O que fiz na noite passada?
Caminhei com Hitler de volta para casa, quando chegamos a equipe de limpeza já havia terminado sua cruzada, alguns pareciam muito furiosos e frustrados, outros apenas acabados como se tivessem enfrentado um exército.
O chefe da equipe os enfileirou a minha frente para o um relatório rápido, pude sentir alguns muito envergonhados expondo os horrores encontrados atrás do sofá.
Por fim um deles comentou:
- O piso do corredor ficou ligeiramente manchado.
Eu dei os ombros, mas pude sentir um onda de tensão no ar. As pessoas a minha frente trocaram olhares curiosos e nervosos e me senti um pouco ofendido. Se matasse alguém dentro da minha própria casa, uma coisa que não está nos planos, não faria tanta sujeira.
- Alguém mais se machucou com as taças e copos? – Perguntei descontraído.
- Não... – Respondeu o chefe, e pude sentir o ambiente mais leve. – Gostaria de saber o saldo de copos quebrados?
Credo! Saldo de copos quebrados? Ele falou como se tivesse um trabalho de verdade. Ainda assim, fiz uma careta como quem diz “Oh, saldo de taças? Lá se foi o jogo que herdei da minha mamãezinha”. Na realidade não me importava e não era novidade eu levar prejuízo nestas malditas “reuniões sociais”.
- Você me aconselharia a comprar um novo conjunto de taças? – Perguntei.
- E copos de uísque. – Completou o chefe com uma falsa expressão de pena.
- Droga! Eu adorava aquele conjunto. – Reclamei com sinceridade, realmente gostava daqueles copos, tinha comprado na minha última viagem de negócios na Europa.
Agradeci e os dispensei com um cheque gordo, que nem fazia cócegas no meu orçamento.
Tentei traçar meus planos para o resto do dia ainda era meio dia e meia, resolvi comer algo e checar meus e-mails.
Esquentei uma sobra qualquer no microondas e peguei meu laptop. Joguei-me no sofá que cheirava tão bem que parecia novo, parecia até uma heresia comer nele. Liguei a tevê de LCD na minha frente e selecionei uma rádio nacional para tocar.
Minha caixa de entrada de e-mails estava lotada, como sempre, deletei a metade só por olhar o nome de quem enviara, playboys fúteis, trabalhos fáceis, desinteressantes, só depois disso tomei coragem para ler alguns dos e-mails.
Hitler veio e saltou para o sofá. Se já fosse um pecado eu estar comendo no sofá limpo, agora eu e Hitler já estávamos condenados as profundezas do inferno. Ele encostou a cabeça na minha perna e choramingou pedindo carinho.
Cogitei ignorar o pedido, mas não consegui e comecei a fazer carinho em sua cabeça.
Pensei que precisava de um trabalho mais cansativo que me tirasse o stress e a preocupação. Talvez bater um pouco... Sorri, talvez apanhar um pouco seria bom.
Terminei de almoçar e larguei a louça na pia, voltei a sala e Hitler havia se espalhado ainda mais pelo sofá.
Refleti sobre as propostas, algumas eram interessantes envolvendo lugares com alta segurança, e até outros países, outras propostas eram ridículas.
Pensei até me considerá-las, me achando ridículo por alguns segundos. Nestes últimos dias tinha pensado demais na minha aposentadoria, era até um pouco deprimente, mas era verdade, estava ficando velho, lerdo e fraco.
Nós, assassinos, tínhamos duas escolhas, ou morríamos cedo ou sumíamos em uma eterna aposentadoria.
Havia algumas exceções, lógico, como alguns dos meus treinadores, exemplos de como envelhecer com “dignidade”.
Então de todas as possíveis opções, eu preferia ser positivo e poder me aposentar inteiro, aproveitando todo o dinheiro que consegui juntar.
Queria até poder me casar, com uma mulher alegre, uma casa grande no subúrbio, dois filhos, três cachorros. Acordei do meu momento sonhador com o celular tocando.
Reconheci imediatamente quem ligava pelo toque, a música tema de Psicose, era Mário.
- Olá, querido!- Ele me saudou animado e sarcástico.
- Oi, Mário.
- Como vai o herói da semana?
- Vivendo...
- Viu o pedido de Zacarias Costa?
- Vi, mas não estou interessado.
- Ok, posso escalar Eros então?
- Fique a vontade, Mário. Estive pensando em tirar umas férias.
- Férias?! – Berrou Mário do outro lado da linha.
- É. – Confirmei com simplicidade.
- Você e férias? Na mesma sentença?
Ignorei o comentário irônico. Houve um breve momento de silêncio e pude ouvir uma fonte artificial que Mário tinha no escritório.
- O bar de Sérgio continua aberto? – Perguntei por fim.
- Até onde saiba...
- Vou visitá-lo.
- Vai a Área em plena luz do dia?
Não tinha pensado em ir de dia, mas a idéia me pareceu excelente.
- Eu nasci na Área, Mário. Não se lembra? Todos nós viemos de lá. – Relembrei Mário desgostoso. – Não precisamos ir de noite para encontrar antigos fantasmas.
- Até me arrepiei agora. – Zombou Mário.
É, eu tive que admitir, foi uma péssima frase de ação.
- Você vem? – Convidei.
- Talvez mais tarde. – Mário respondeu e perguntou. – Eí, o que deu em você ontem à noite?
- Quê?
- Sei lá, eu tinha ido embora comer Dora, mas o pessoal que ficou falou que você chegou meio alterado.
- Comer Dora? – Perguntei mudando o foco da conversa.
- Não fale assim, a coitada não está de luto, só está recuperando o tempo perdido.
- Obrigado pela parte que me toca.
- Eu tinha até esquecido do que ela fazia...
- Tchau, Mário. – O interrompi impaciente.
- Com aquela...
Desliguei antes que ele terminasse, sabia muito bem do que ele estava falando, não tinha como esquecer.


Pessoal, Comentem!

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