sexta-feira, 26 de junho de 2009

Capítulo 8 – Conheça Paula

Capítulo 8 – Conheça Paula
Estonteante como sempre, Paulinha usava um curto short jeans expondo as pernas bem torneadas. Ela tinha um olhar triste e cansado, era a primeira vez em anos que eu a via sem nada de maquiagem.
Levantei-me e dei um abraço nela. A envolvi primeiramente devagar, mas depois a apertei com força sentindo cada curva ao meu encontro.
Ela começou a chorar, mas só afaguei seus cabelos, como vi Arthur fazendo, várias e várias vezes.
Depois de um tempo sentamos a mesa. Chamei o garçom e pedi o sorvete favorito de seu pai e vi o brilho de reconhecimento em seus olhos.
- Quando você era pequena, adorava o de morango com marshmallow. – Comentei. – Mas você não é mais uma menininha.
Ela concordou comigo, mas recusou o sorvete.
- Não almocei.
- Nem eu. – Admiti.
- Eu não quero sorvete. – Ela disse calmamente coçando os olhos vermelhos.
- Traga uma água para ela. – Eu ordenei ao garçom e o dispensei com um gesto.
Paula estava com as mãos sobre o colo e olhava para elas. Me debrucei sobre a mesa e sussurrei em seu ouvido palavras reconfortantes.
Ela tinha dezoito, eu a vi crescer. Se fosse uma pessoa ética diria que a vejo como filha ou como uma irmã mais nova.
Mas eu não sou uma pessoa ética.
Ali, com os cabelos ao vento, olhos injetados, a boca entre aberta e tremendo por causa dos soluços ela estava irresistivelmente sensual.
Quando o sorvete chegou voltei a me sentar, a observei bebendo água em desespero. Quis levá-la para casa.
Comi uma colher do sorvete era horrivelmente doce e enjoado mas me forcei a agüentar sem fazer careta ou transparecer nada.
Ela estava agora com uma das mãos sobre a mesa e olhava distraidamente para Hitler.
Segurei a mão estendida com delicadeza. Pude sentir sua pulsação dar um salto, sorri para ela. Passei meus dedos por entro os dela juntando nossas mãos.
- Vai ficar tudo bem. – Eu lhe disse com o melhor sorriso que consegui.
Ela sorriu de volta.
- Eu sei, afinal, tenho meu tio Victor.
Fiz uma careta. Por mais que gostasse que alguém, me considerasse da família, o lance de tio incomodava um pouco o meu ego masculino.
Quase dez anos nos separavam, mas para mim o número não era tão chocante, eu a conhecia muito bem, tinha catorze anos quando a vi pela primeira vez.
Entenda, eu tinha algum tempo de treinamento com os especialistas, mas ninguém queria contratar um pirralho de 14 para fazer um serviço. Precisava de algo para passar meu tempo e nenhum dos meus treinadores queria que eu me envolvesse com drogas, o único destino para jovens da Área Negra.
Então Arthur, antes de trair a todos, me ofereceu um trabalho, cuidar de Paula. Arthur era um dos mais influentes na Área e mantinha uma vida de aparências, quando não estava matando e torturando, era um advogado, excelente, diga-se de passagem.
Para ele, sua filha e sai esposa era alvos fáceis nas mãos de seus inimigos.
Na verdade só imbecis seriam capazes de ameaçá-lo, então o trabalho de cuidar de Paula, se tornou fácil e divertido. Com vinte anos me demiti, estava recebendo muitos pedidos periódicos e uma fama crescente sobre mim começou a se espalhar pela cidade.
Ainda me lembro do rosto choroso de Paula aos onze anos perguntando se ia voltar a visitá-la, menti na época dizendo que viria sempre que pudesse.
A verdade é que quando eu tinha tempo livre me ocupava com a prática de Le Parkour e cursos instrutivos de como aplicar com segurança na mercado de ações. Só nos encontrávamos em festas e dividimos alguns sorvetes nesta mesma mesa.
Paula olhava para meu sorvete com um fingindo desinteresse, servi uma porção na colher e lhe ofereci. Ela aceitou e se debruçou sobre a mesa e encostou os lábios na colher.
Depois de comer o que eu havia oferecido, servi outra porção generosa e ofereci.
Limpei os lábios dela com delicadeza e tive vontade de beijá-la Mordi a ponta da língua tentando me concentrar e empurrei o resto do sorvete para ela.
Paula me olhou grata.
- Era o favorito do meu pai. – Ela comentou brincando com a calda.
- Sério?
Ela concordou e comeu o restante do sorvete em silêncio. Este era o especial entre nós dois, o silêncio sincero de quando não tínhamos nada para falar.
Hitler estava em silêncio, mas inquieto mexendo as patas, levantando o focinho e farejando o nada.
Levantei-me e estiquei as costas, Paula me estudou com os olhos preocupados.
- Você parece cansado. – Ela comentou.
Como estava ocupado demais encostando as mãos nos pés, não respondi.
- Mas ao mesmo tempo parece bem. – Ela prosseguiu devagar.
Consertei minha postura e olhei no fundo dos seus olhos.
- Sempre estou bem quando estou com você. – Eu disse mais não pareceu natural, pareceu forçado e artificial.
Ainda assim, ela sorriu para mim. Arrastei uma das cadeiras para mais perto dela e sentei-me.
Paula me abraçou, colocando a cabeça no meu ombro, com uma voz receosa disse:
- A pessoa que fez isso vai pagar.
E eu sabia que deveria falar para ela que eu era o culpado o quanto antes. Sabia que quanto mais rápido explicasse a situação mais fácil seria para consertar tudo.
Direcionei toda minha energia para aquela ação mas não pude, não queria vê-la perdida novamente.
- Como vai Renato? – Perguntei fingindo desinteresse sobre como ia seu namorado.
- Bem. – Ela disse vagamente. – Ocupado com negócios. Viajando como sempre.
- Ele falou com você? Sobre o que aconteceu?
Ela negou sem tirar os olhos do que sobreviveu do sorvete.
- Digo... Ele ligou, mas ele foi... formal demais, frio demais.
Eu passei meu braço ao redor dela aninhado-a.
- Ele é um idiota.
Renato era muito mais do que um idiota, mas preferi deixar os detalhes só para mim.
Despedi-me de Paula com um beijo estalado em sua testa e a promessa de que voltaria logo e a acompanharia no velório de Arthur.

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