sexta-feira, 26 de junho de 2009

Capítulo 6 – O corte

Capítulo 6 – O corte
Cheguei em casa chutando, xingando e berrando. Só lembro-me desta entrada triunfal. Estava bêbado demais para conseguir lembrar o que eu fiz depois.
Acordei vomitado no chão da sala, pela manhã. Minha casa estava um caos cheia de lixo por todos os lados, destruída.
Aquilo me transportou para a lembrança as minha casa de infância, eu até me senti confortável ali.
Minha cabeça latejava três vezes mais, Ficar de porre era uma porra.
Meu cão me olhou parecendo ter medo de mim e comecei a me perguntar o que eu tinha feito.
Levantei-me devagar, arranquei a blusa vomitada e a joguei no chão com raiva. Hitler, meu cão choramingou e se afastou.
Isso era o ruim de ter um cão sentimental, se fosse para escolher eu preferiria naquele momento um cachorro furioso mordendo meus calcanhares, para demonstrar o que sentia.
Estudei a sala começando a finalmente me incomodar com a bagunça.
Comecei a marchar em direção ao banheiro, sofrendo por antecedência ao me imaginar limpando a casa.
Nem enxerguei o caco de vidro que estava no chão. Pisei com vontade nele.
A dor foi trucidante, uma queimação se espalhou por todo meu pé e começou a subir até o joelho.
Não xinguei, não reclamei, foi até um pouco libertador, acho que estava precisando sentir dor. Dei mais dois passos com força e o vidro adentrou ainda mais.
Deixei uma pegada de sangue no chão.
Tudo que pude raciocinar foi o quanto seria chato ficar esfregando o chão até a mancha sair.
Encostei-me na parede do corredor e puxei o pé para cima. Estava feio mas nada comparado as coisas que já vi.
Sentei no chão e coloquei o pé machucado suspenso, o sangue escorreu pela perna.
Merda, eu não queria fazer outra mancha no chão. Assoviei para Hitler.
Esperei e aquele cão desgraçado não veio, tive de chamá-lo pelo nome.
Ele veio com o rabo entre as pernas e uma expressão contrariada. Sentiu o cheiro de sangue mas precisou enfiar o focinho na poça para identificar de onde vinha.
- Hitler, pegue uma toalha. – Ordenei.
Hitler ficou parado me estudando com cuidado. Esperando por algo.
- Por favor. – Pedi educadamente.
A delicada expressão pareceu surtir algum efeito. Meu cão foi até a cozinha.
Encostei o pé direito, o cortado, sobre a perna esquerda e manchei meu jeans. Com meus dedos finos peguei a pequena ponta de vidro que estava visível e fora do pé.
Puxei devagar e gerei um fluxo de sangue impressionante. As pontas dos meus dedos ficaram cobertas pelo sangue quente e pegajoso.
O cheiro metalizado era ótimo. Fiquei tentando a lamber meus dedos, algo me conteve. Agradeci, iria me achar muito ridículo se o fizesse.
Fiquei brincando de deslocar o pedaço de vidro de um lado para o outro, criando constantemente um fluxo de sangue insano.
Hitler chegou trazendo mais do que a toalha que havia pedido. Trouxe, na boca, o kit de primeiros socorros. Tirei o kit de sua boca com a mão limpa e um filete de baba canina veio junto.
Hitler sentou-se de frente para mim e ficou me encarando como se quisesse evitar que eu fizesse alguma besteira.
Tudo bem, pensei. Sem dificuldade abri o kit com a mão limpa, uma das proezas de ser ambidestro. Tirei uma anestesia e coloquei na seringa, injetei no me pé e esperei começar a fazer efeito.
Meu pé começou a adormecer, dei uma puxada violenta no pedaço de vidro arrancando-o inteiramente do meu pé.
Tentei estancar o sangue e, só depois que consegui, me arrisquei suturar meu pé, dei alguns pontos tortos.
Hitler rosnou me censurando, mas o ignorei frustrado, um cachorro achava que podia me intimidar.
Bufei uma maldição e pulei com um pé só até o banheiro. Ao passar pelo corredor e dar um checada rápida nos cômodos percebi que a limpeza não ficaria sob minha responsabilidade.

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