Capítulo 5 – Confissões de um bêbado
Aqui vai minha concepção sobre o álcool.
Beber é uma arte, quando se sabe beber. Ficar embriagado é inseguro, ficar bêbado é humilhante e por fim, porres e ressacas são uma merda.
Você bebe vinho e saquê com os amigos e em casa, para você poder cair no sono na primeira oportunidade depois que rir idiotamente. Beber duas ou três latas de cerveja casualmente em um churrasco é aceitável. Agora uísque, cachaça e vodca você só enfia goela abaixo, quando está tentando se matar, de preferência em casa, sozinho e no escuro.
Mas lá estava eu num boteco, na terceira dose de uísque quando ouvi pela tevê notícias sobre o assassinado brutal do traidor.
Sua esposa apareceu chorosa acompanhada pela filha, eu as conhecia muito bem.
Era isto que estava me incomodando? Perguntei-me sem entender. O simples fato de que teria que reconfortá-las, ampará-las? É, era uma situação nova para mim.
Não era a primeira vez que eu matava e duvidava que seria a última, contudo era a primeira vez que eu iria reconfortar a família do falecido.
Eu havia matado um traidor, um ex-colega de profissão, um ex-parceiro, um ex-mafioso, um ex-amigo. Maldito seja Arthur.
Você deve estar se perguntando o que eu faço da vida. Sou a escória, o lixo. Chame-me de boêmio, de herege, pecador, mercenário. Pois eu sou um matador de aluguel.
E ai vai o pior. Eu gosto do que faço. Talvez seja porque sempre associei felicidade com dinheiro.
Um bancário tedioso com 30 anos de serviço nunca vai conseguir acumular nem metade da quantia que eu tenho guardada nas minhas contas.
Ganho muito com a morte das outras pessoas. Fato.
Comecei cedo, sou relativamente novo. Acredito que foi tudo da minha mãe, como sempre.
Uma das lembranças mais rudimentares que tenho é daquela imbecil reclamando da vida e da falta de dinheiro. Ela costumava a falar dos vizinhos e seus ricos filhos traficantes, com inveja.
Lembro no dia que minha irmã mais velha, Bernada, nos disse que estava com um emprego novo, matadora.
Mamãe ficou orgulhosa, amou sua filha ainda mais e me deixou de lado.
Quero deixar claro, eu não sou uma pessoa complexada, só tive azar na infância. Naquela época eu não tinha nada, hoje, eu tenho tudo que preciso e ainda mais.
Continuando... Onde estava? Ah, sim...!
Mamãe ficou orgulhosa de Bernada, faceira, fazia questão de esfregar na minha cara assim como nas cara dos vizinhos a novidade.
A afobação passou rápido. Claro que a boca enorme da minha mãe não se conteve. E é óbvio que em menos de dois meses de atuação, Bernada apareceu morta em nossa soleira.
E sem sombra de dúvida, minha mãe me culpou por tudo.
Ela tinha bons argumentos, afinal, Bernada tinha me colocado no grupo de assassinos antes de morrer.
Lembro-me como se fosse ontem a minha primeira missão, enterrar alguns animais mortos no treinamento. Quase vomitei.
Em poucos meses já estava enterrando pessoas, a cada corpo violado, estripado, decepado, rasgado, descobria o lado fétido da humanidade.
Em menos de um ano tinha sido adotado pelo grupo de ex-militares e fui treinado como um combatente desde os treze.
Quando fiz dezesseis anos recebi minha primeira missão, juntamente com o primeiro pagamento.
Foi um linchamento, surra seguida de morte. Era para ser devagar, dolorido.
Lembrei do sangue, das lágrimas, das pernas chutando desesperadamente o ar, do brilho apagando dos olhos.
Merda! Eu percebi que estava bêbado, emocional e fraco. Era patético.
Saquei 150 da carteira e coloquei no balcão. Eu tinha entrada no boteco sob o sol de meio dia, e ao escurecer, me arrastei de volta para casa.
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