sexta-feira, 26 de junho de 2009

Capítulo 7 – Na sorveteria

Capítulo 7 – Na sorveteria
Tomei banho, me vesti, enfeixei o pé e liguei para um serviço de limpeza.
Quando a campainha tocou, eu já estava pronto para caminhar com Hitler.
Dei algumas rápidas orientações ao responsável do grupo, coisas habituais como, não procurem por um fundo falso no meu closet, vocês podem encontrar muito mais do que poeira, e não mecham no meu escritório por mais caótico que ele possa parecer.
Hitler pareceu ficar mais conformado quando saímos. Eu andava meio torto para evitar que os pontos se abrissem. Hitler como um labrador de nascença corria pelos cantos me arrastando.
Cheguei até o bairro do traidor e parei no lado de fora de uma sorveteria. Estiquei o pé machucado sobre uma das cadeiras sobressalentes, me sentindo muito a vontade.
Hitler latia para as pessoas e abanava o rabo, as pessoas só me notavam ali por cause dele.
Ninguém se importava com uma criatura de bermuda cáqui e blusa branca sentado ao sol, bebendo água.
Ninguém se importava com alguém tão discreto, tão normal.
Eu não estava lá para ser notado mesmo. Tirei meu celular de um dos bolsos, para ouvir com mais facilidade caso me ligassem.
Mantive meus olhos voltados para um prédio do outro lado da rua, era alto e espelhado, tinha uns 20 andares. E eu sabia que o traidor morava em um duplex com entrada exclusiva para a cobertura.
Eu não podia ver muito além dos dez primeiros andares na posição em que estava, mas não fazia questão de me mexer o pescoço.
Tudo que eu precisava era ter uma boa visão da entrada do prédio. Era manhã, a superdose de uísque me fizera perder muito tempo dormindo. Naquele momento eu comecei a sentir fome e uma dor de cabeça voltou a me incomodar. Já haviam se passado mais de 24 horas desde a morte de Arthur.
Hitler cansou de interagir com o mundo e se escondeu embaixo da mesa para evitar o sol quente.
Quem eu esperava saiu batendo o pés, seus cabelos pareciam bagunçados e sua expressão era a de uma pessoa perdida. Ela andou para a direita, mas parou e seguiu alguns passos para a esquerda. Parou novamente, com um grande celular verde na mão, e arrastou até a posição inicial.
Peguei o cardápio sobre a mesa, Hitler levantou seu rosto curioso. Olhei para ele e comentei:
- Pode tirar o cavalinho da chuva, diabético.
Hitler abaixou o focinho e voltou a fechar os olhos.
Do outro lado da rua a garota havia decidido para quem pedir ajuda. Meu celular tocou sobre a mesa, sem me surpreender, identifiquei o nome de quem ligava e esperei tocar mais algumas vezes antes de atender:
- Oi.
- Oi, tio. – A voz dela estava embarganhada, baixa, trêmula. Chorosa.
- Olá, querida. – Eu disse calmo.
- Eu precisava falar com alguém...
- Estou sempre disponível para você.
- Você está em casa?
- Não... Estou curtindo um sorvete e pensado nos velhos tempos.
- Onde? – A voz dela tremeu e hesitou.
- Aquela que seu pai costumava me encontrar.
- Na Tropical? – Seu tom agora era mais seguro.
- É.
Mantive-me escondido por trás do cardápio. Se levantasse meus olhos teria visto ela olhar atentamente para a sorveteria me procurando.
Fiquei passando meus olhos pelas opções, mas já tinha decidido há muito tempo o que iria pedir.
Hitler latiu baixo, tirei os olhos do cardápio, ela estava a menos de um metro de mim.

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